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Empecilhos da civilização
Mestre J. não está nada feliz com a maneira como venho executando minha seqüência de golpes. Ele acha que falta intenção nos meus movimentos. Concordo. Então ele me colocou de frente para o espelho e pediu que eu acreditasse, de verdade, que estava lutando com alguém. Tentei. Melhorou um pouquinho, mas não o suficiente.
- É uma pena que eu não possa bater em você de verdade...
Ele estava triste, decepcionado comigo.
- Aposto que você nunca se meteu em briga de rua quando criança.
- Nunca.
E considerando que agora sou escritora de literatura infanto-juvenil, não acho que seja uma boa hora para começar.
Mestre J. lamenta que eu não possa experimentar os golpes agindo no meu corpo. Então, sim, eu entenderia a intenção de cada um. Ele lamenta estarmos em 2008, na Vila Madalena, com todas essas normas e condutas de sociedade civilizada. No treino quebramos vários paradigmas de comportamento, mas ainda não conseguimos ultrapassar essa última barreira. Sinto que sua tristeza é de não poder me dar a oportunidade de aprender como se deve. Se ele pudesse, hoje eu não estaria aqui, escrevendo num blog, mas no hospital, quieta, imobilizada, processando cada golpe que recebi. Eu retornaria em outubro, pronta para a verdadeira luta.
Escrito por Índigo às 10h27
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O bordado eterno
Uma hora antes do treino eu estava no sofá de casa, bordando. É um bordado que comecei em 1995, sem previsão para acabar. Ele não é linear. De vez em quando eu desfaço trechos inteiros porque achei que a cor estava errada. Ou que ficou excessivo. Tem gente que fica ansiosa de ver. As pessoas em geral ficam irritadas quando me pegam destruindo meu próprio trabalho. Bordar é como escrever. Em 1995 eu não escrevia. Quer dizer, escrevia, mas era tudo lastimável. Então comecei a pegar o bordado nas horas em que as histórias chegam num entrave. Ele é feito de florzinhas. Normalmente, se pego uma flor de tamanho grande, soluciono o entrave antes de chegar ao final da flor. Agora me dei conta que se algum dia eu terminar esse bordado, trarei grandes danos à minha literatura.
Quando deu 5:45h, guardei o bordado e fui para o Kung Fu, ainda pensando na trama enroscada. Até que cheguei no ponto do treino em que, se eu não parasse de pensar e começasse a lutar, logo sofreria as conseqüências. Um nariz quebrado, por exemplo.
Escrito por Índigo às 10h08
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Como narrar um fim de semana – parte 2
Ou eu poderia falar que fiquei na rede, bebericando vinho e ouvindo meu namorado tocar violão. Teve um momento em que lembrei do livro que eu deveria estar escrevendo. Lembrei do prazo. Mas era uma lembrança tão levinha que logo se foi, batendo asas.
E daí comecei a cantar:
“Soooo... so you think you can tell... Heaven from hell.. Blue skies from pain…”
Escrito por Índigo às 09h44
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Como narrar um fim de semana
Eu poderia, por exemplo, dizer que acordei no domingo e fiz uma torta de três queijos. Depois tropecei e rolei escada a baixo. Na parte da tarde um passarinho entrou em cheio no vidro da sala e caiu morto bem na minha frente. Quando cheguei em casa, minha gata havia vomitado em cima dos meus textos. Não estaria mentindo. Mas, felizmente, não foi só isso.
Escrito por Índigo às 12h19
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Queridos leitores:
Vou ser sincera. Depois que tirei os comentários desse blog, o sossego tem sido tão grande que eu até esqueço que tenho blog. É o que aconteceu hoje. Agora me dei conta que já deu meio-dia e eu tenho de sair. Só volto de tardezinha. E também não preparei nada para o post de hoje. Então resolvi escrever a verdade.
Pra mim, tem sido maravilhoso. Finalmente consegui colocar o blog no seu lugar.
Fui!
Escrito por Índigo às 12h10
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Relatos do Kung Fu
Ontem surgiram dois novatos na academia. Saíram do vestiário com suas roupinhas ainda novas em folha, lisinhas como uniforme de escola. A faixa na cintura toda errada, amarrada feito avental. As sapatilhas novinhas, sem credibilidade alguma. Durante o alongamento, só ouviram o mestre dizendo como eram duros, que ainda teriam de fazer muito, muito alongamento na vida. Eles davam sorrisinhos cordiais, e olhavam para mim e Kill Bel em busca de apoio. O mestre apontava para nós como exemplos de alongamento, dedicação e perseverança. Em vez de apoio, devolvíamos olhares de superioridade. Não... nós nunca fomos como eles. Jamais!
Escrito por Índigo às 11h16
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Condições propícias
Graças à chuva insaciável, passei o fim de semana escrevendo. Deixei um restinho para hoje de manhã e consegui terminar o livro. Sobre esse livro: foi uma escrita fulminante. Comecei em outubro, acabei hoje. Não por querer que fosse assim. São prazos da editora. E eu topo. Pois é. Isso ainda é um dilema para mim.
Estou aqui em dúvida se coloco o título nesse post. Melhor não. Agora tenho de fazer várias leituras, provavelmente reescrever trechos inteiros, coisa e tal. Testar o título...
Em todo caso, é o tipo de livro que deixará saudades. O personagem era tão louco. Gostava de encontrá-lo toda manhã, trabalhar com ele. Um menino atormentado de 13 anos de idade que me deixava de queixo caído a cada página.
Escrito por Índigo às 11h02
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Diálogo 8
- ... daí ela apareceu com um vestido de oncinha.
- Pera aí. Ela foi com um vestido de oncinha no primeiro encontro?
- Foi.
- Era curto?
- Não lembro.
- Justo?
- Não lembro.
- Era de manga ou alcinha?
- Sério, não lembro.
- Pode falar, querido. Estou perguntando como escritora, não como namorada.
Escrito por Índigo às 11h04
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Diálogo 7
- O blog dele é maravilhoso!
- Ah, é?
- Não tem nada de literatura. O cara só vai escrevendo o que ele faz. Tipo, onde ele almoça... Fala do trabalho dele. Simples. Maravilhoso.
- Hum...
- É a coisa mais genial que tem na rede. Ele senta e escreve, sabe?
- A-hã.
- Coisa de gênio mesmo.
Escrito por Índigo às 11h47
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Frases malditas
Há alguns meses estou me desentendendo com o Word. Ontem tomei coragem e chamei uma nova técnica aqui. Mostrei o arquivo que causou o problema. O problema é que meu word trava. Expliquei tim-tim por tim-tim. Ela então explicou que algumas frases causam isso.
- Como assim, algumas frases?
- Existem certas frases, certas palavras... É um problema do sistema.
A técnica contou de casos de advogados (ela tem muitos clientes advogados) que contornam o problema simplesmente mudando a frase, ou a palavra.
- Bom, no caso da literatura não dá. Era uma frase perfeita. Não vou trocar as palavras da minha frase.
A técnica achou que eu estava sendo pouco razoável. Quis ver a frase. Mostrei.
- Hum... Você usou a palavra “post-it”.
- Mas eu já...
- ...você já usou a palavra “post-it” em outros textos. Eu sei... É que nesse caso a combinação dessa palavra nessa frase... Vou mandar para a Microsoft. Costumo mandar esses casos para eles.
Sim, a frase maldita: “Pego um bloquinho de post-it e anoto o valor do pagamento mínimo que, mesmo mínimo, é maior que os valores que eu apresentava nos meses anteriores."
Podem tentar, se quiserem. Exige a combinação de Windows XP com Office 2003.
PS – Esse post, obviamente, não foi escrito em Word.
Escrito por Índigo às 09h48
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O clique do ignitor
Meu próximo livro devia ser dedicado à minha vizinha. Desde que ela arrumou emprego, acabaram as gritarias, os trancos da máquina de lavar, as panelas, as músicas do Sá e Guarabira, o choramingado que ela dava ao telefone quando o marido telefonava, o rodo batendo contra a parede, a água da torneira, o clique do ignitor do fogão. Pra vocês verem como minha literatura é frágil.
Escrito por Índigo às 10h08
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Explicaçãozinha
Fazia tempo que isso não acontecia. Começo a trabalhar de manhã e dá meio-dia sem que eu perceba. Trabalho num romance. Curto, mas bem intenso. Então, quando dá meio-dia, eu me pergunto: “ai, e agora? Não tenho nada pra botar no blog! Saco...”
Peço, por favor, que não desistam. Fiquem aí. Acho que vai valer a pena. Acho...
Escrito por Índigo às 12h26
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Diálogo 6
- Você acha que na Índia as pessoas fazem yoga? Que yoga o que... As pessoas lá trabalham. Quem faz yoga é americano. Na Índia não tem ar que nem aqui. Lá, quando você inspira, vem cheiro de gasolina, poluição, tempero de comida, lixo, bosta de vaca. Não é ar que nem aqui. É muita gente. A Índia é tipo uma 25 de março. O país inteiro é uma 25 de março. Todo mundo anda se esfregando um no outro, pingando de calor.
- É mais quente?
- É quente igual, só que lá você fica se esfregando, entendeu. As vacas. Não tem um lugar sem uma vaca morrendo e você tem de se esfregar nas vacas pra passar. Daí eu tava andando na rua e uma vaca lambeu a minha cara.
- Credo!
- Nojento. Eu tive que ficar andando com baba de vaca na cara e nem dava pra lavar o rosto porque a água é tudo contaminada. Não é que ninguém aqui. Daí você vai prum casamento e o casamento dura cinco dias. Fiquei 25 dias e fui em dois casamentos. Imagina. E não tem salada. Quando você encontra um pepininho, você agradece a Deus. Nunca fiquei tão feliz de ver pepino na vida. É a única coisa verde que tem lá.
- Estranho a vaca ter te lambido.
- Estranho nada. Lá é assim. É Índia, entendeu. É tudo meio surreal.
Escrito por Índigo às 10h20
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Coisas da Livraria da Vila
A Livraria da Vila é fantástica em vários aspectos, mas, para mim, o principal é que lá é o único lugar do planeta em que meus livros vendem mais que Harry Potter.
Já tinha acontecido com “Como casar com André Martins” e “Perdendo Perninhas”. Agora, janeiro de 2008, está lá: “O livro das cartas encantadas” é o segundo mais vendido na categoria juvenil. Harry está em quarto. Certas coisas a gente simplesmente aceita, sem questionar muito. Então tá.
Escrito por Índigo às 10h00
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Culinária intuitiva
Uma das minhas metas para 2008 é aprender a cozinhar direito. Já comecei. O primeiro passo é ousar mais. Tenho aplicado as técnicas de Kung Fu na minha faceta cozinheira. Ontem, no sacolão, decidi que compraria um pacotinho de guioza no vapor que sempre me chamou atenção, mas que nunca comprei por falta de coragem. É um pacotinho pra quem sabe cozinhar. Não tem instruções de preparo. Então perguntei a uma mulher que fazia compras ao mesmo tempo que dava bronca no filho pelo celular. Mulheres assim sabem cozinhar. Mas no caso do guioza, ela também não fazia idéia. Então passou uma terceira mulher, do tipo mulher de congelados, e disse que devia ser que nem macarrão. Comprei. Se fosse um rolamento de Kung Fu, eu rolaria e pronto, sem pedir muita instrução. Cheguei em casa e segui minha intuição. Minha intuição sempre diz que a gente deve ferver a água e jogar a comida lá dentro. Ficou divino. Hei! Em breve, mais aventuras incríveis de... “Uma ninja na cozinha”
Escrito por Índigo às 10h38
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Um passarinho
Desde as 8:30 da manhã minha casa virou um campo de batalha. Valentina aprisionou um passarinho dentro do box do banheiro. Nunca, em 7 anos de vida, ela tinha caçado um passarinho. Jamais imaginei que tivesse capacidade. Mas, voilá!
Primeiro me senti meio mal com o bicho morrendo ali, piando de dor. Pensei em salvá-lo. Depois pensei melhor e não achei certo. Afinal, meu compromisso é com minha gata, e se ela é uma assassina, tenho de apoiá-la nessas horas também. Tentei voltar a escrever, quando o passarinho saiu voando pela casa. Valentina atrás. Bem, isso mudava as coisas. Se o bicho ainda conseguia voar, então valia a pena ajudá-lo. Abri portas e janelas e voltei ao trabalho. Quer dizer, tentei. Foi uma hora de perseguição. Resumo da história. O passarinho escapou. Não sei como será sua vida de agora em diante. Estava bem estropiado. Deixou penas pela sala.
Quanto à Valentina, está andando em círculos na sala. Rugindo. Na dúvida, achei melhor trancar a porta do escritório.
Escrito por Índigo às 11h28
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Começando 2008
Ok. Vamos começar 2008, então.
Primeiro, resolvi que vou continuar a tocar esse blog. Por pouco ele não foi detonado. Mas, pensei, pensei... e resolvi que vou continuar.
Segundo, resolvi que vou abolir os comentários. Aliás, já aboli. Isso, porque eu sou volúvel. Não sabia que eu era. Foi até uma surpresa. Mas a Ivana disse que sou e, como de fato sou, aceitei. Agora eu nunca mais vou saber o que vocês estão achando do meu blog. No fundo, isso é o que eu mais quero. Escrever sossegada. Quem gostou, beleza. Quem não gostou, sorry.
É isso.
Have a nice day.
Escrito por Índigo às 11h04
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