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Dra. Jodorovsky

Certo dia Jeremias enfiou um papelzinho no bolso do meu roupão. Era o cartão de uma cirurgiã plástica russa. Rasguei o cartão e joguei os pedacinhos na privada. Nunca havia sido tão ofendida na minha vida. Uma semana depois, estava na piscina tomando sol quando uma mulher puxou uma espreguiçadeira e perguntou se podia me fazer companhia. Entregou-me um cartão. Era ela. Doutora Jodorovsky: livre-se de suas imperfeições. Relutei durante dias, mas finalmente resolvi recebe-la no meu escritório. Ela trouxe uma pasta de Antes de Depois. Pedi para ficar com o material. Mostrei para Jack e disse que eu faria se ele também fizesse.
Era um velho sonho de infância que agora estava ali, ao meu alcance. Finalmente poderíamos ter narizes arrebitados!
Segurei a mão de Jack e perguntei:
“Jack, você faria isso por mim?”
Ele concordou contanto que ninguém soubesse. Informamos a todos que estávamos viajando de férias para as Bahamas. Dois meses de férias. Quando nos beijávamos, era como duas múmias. Uma vez nossos esparadrapos ficaram grudados um no outro e quase estragamos todo o trabalho da Doutora Jodorovsky. Voltamos com “um aspecto descansado”. É por essas e outras que amo Jack.
Escrito por Índigo às 08h41
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Jeremias Sauvageot

É quase impossível apontar quando exatamente minha casa começou a ser invadida por artistas. Jade diz que tudo começou com os tutores de Jimi, mas não foi. Tenho certeza que ela os trouxe sorrateiramente, no meio da noite. Eu os encontrava na mesa do café da manhã. Não que eles viessem tomar café da manhã. Eles estavam naquela mesa desde a noite anterior, bebendo vinho e comendo bolachinhas salclic. Eu precisava varrer os farelos para poder tomar meu café. Jeremias Sauvageot era um desses. Ele fazia body art. Quando o conheci os dedos da sua mão direita haviam sido costurados uns nos outros. Um dente saía da sua narina esquerda e sua orelha, não lembro se direita ou esquerda, estava de ponta-cabeça. Por mim, tudo bem. Mas daí Jeremias Sauvageot começou a me agradecer por eu ser parte fundamental da sua arte. Dizia que eu era seu melhor agente passivo. Ele colocava óculos para me observar tomando café. Imitava o jeito como eu levava a xícara à boca. Pulava da cadeira e berrava:
“Genial! Esplêndido”.
Escrito por Índigo às 09h40
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Recado do pato

Hoje, excepcionalmente, não haverá espetáculo porque a diretora acaba de acordar com grande ressaca. Retornamos na segunda-feira. Obrigada pela compreensão e tenham todos um bom fim de semana.
Escrito por Índigo às 10h54
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Joyce, a generosa

Minha sogra fazia aparições na minha casa. Eu acordava e a encontrava na cozinha, preparando um almoço para trinta pessoas. Não eram nem onze da manhã e ela já tinha ligado para as trinta pessoas. Ela ligava para um buffet e encomendava mesinhas de plástico com cadeiras. Armava tudo no quintal e abria garrafas e mais garrafas de uísque. Todos admiravam a generosidade de Joyce numa terça-feira normal. Parentes vinham de Valinhos, Lins, às vezes ficavam até a quinta. Jarbas vestia um terno branco. Eles falavam em francês, Jarbas e Joyce, e riam apontando um para a cara do outro. Eu não agüentava e ia dormir. Acordava às cinco da tarde e então percebia que todos haviam voltado para suas vidas. Joyce havia desaparecido e Jarbas perguntava se eu queria uma aspirina .
Escrito por Índigo às 09h12
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Jovens incendiários

Os amigos do ex-namorado de Jennifer queriam revanche. Duas horas depois do enterro eles estavam na porta da nossa casa segurando pedaços de pau. Eu disse para Jennifer:
“Jennifer! Vá lá falar com eles. E diga que eu já estou ligando pra polícia.”
Jennifer foi correndo. Quando olhei pela frestinha da cortina, ela tinha arrancado a cabeça de uma réplica de Davi que tenho no jardim. A cabeça do Davi estava apoiada sobre a cabeça da minha própria filha. Liguei para a polícia, que chegou imediatamente e levou todo mundo para a delegacia. No domingo Jack foi buscar Jennifer na delegacia. Ela estava bem mais calma e morta de fome. É uma pena que hoje em dia o sistema penitenciário seja tão subutilizado pelas mães.
Escrito por Índigo às 09h08
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Júpiter e Jaspion

Jimi sempre foi um menino muito ligado à natureza. Ele tinha dois rottweillers: Júpiter e Jaspion. O problema é que com seis anos de idade ele não tinha autoridade para manter Júpiter e Jaspion sob controle. Eles acabaram esquartejando um dos namorados da Jennifer. Foi um estresse. A mãe do garoto queria nos colocar na cadeia. Felizmente, Jonas Thompson, nosso advogado, resolveu a questão sem precisarmos derramar mais sangue. Em breve vou apresentar Jonas Thompson para vocês. Depois desse episódio ele passou a vir aqui com bastante regularidade. Agora Júpiter e Jaspion dormem aos pés de Jimi, meus três anjinhos.
Escrito por Índigo às 08h10
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Pai Jurandir, guru entre outras coisas

Pai Jurandir tinha mãos mágicas. Ele também jogava búzios e vendia comida congelada. Eu estava no fundo do poço, morrendo de fome em Las Vegas, quando telefonei para ele e pedi que jogasse os búzios para mim, por telefone mesmo. Pai Jurandir disse que naquela noite eu devia ir para um cassino, pedir um dry martini e ficar sentada no balcão. Foi assim que conheci Jack. Ele não estava numa noite de sorte.
“Jack, pare com isso. Me dê duzentos dólares que eu recupero tudo para você, baby”.
Apostei os duzentos dólares do Jack e ganhei cinco mil dólares. Nunca tinha pegado cinco mil dólares nas mãos. Vieram em notas de cinqüenta, num montinho abraçado por um elástico. Passei o dedão pelas notas, como até então só havia feito com listas telefônicas encardidas. Jack me pegou pela cintura e nós nos casamos num drive-through. Agora Pai Jurandir cobra 200 dólares pelo pacote: massagem, leitura de búzios e uma torta de palmito com massa integral. Justo!
Escrito por Índigo às 10h59
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Jade, a viúva deslocada

Jade (irmã de Jack) voltou recentemente de São Petersburgo, onde viveu durante os últimos quinze anos. Quando partiu, era mocinha de tudo. Foi estudar balé. Até estudou, mas logo se casou com um russo, diretor de teatro. O Vladimir. Agora o Vladimir morreu e ela voltou pro Brasil.
Jade jura que teve uma brilhante carreira de bailarina, mas gorda desse jeito... duvido. Ela até mostrou umas fotos. Ela dançava com uma cobra. Nada a ver com o balé russo que a gente imagina. Se ela quiser seguir na profissão só se arranjar uma sucuri pra aparecer no meio de tanta banha. Ela está temporariamente vivendo conosco há um ano. Eu acho que ela devia procurar emprego num circo, mas Jade sempre toma minhas sugestões como ofensas, então eu tenho tentado me manter de boca calada.
Escrito por Índigo às 08h45
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Jimi, um ser especial

Este é meu filho caçula, Jimi. Ele é uma criança iluminada e única no universo. Por ser assim, é muito invejado. Jack acha que ele é retardado mental. Na verdade, Jimi é uma criança índigo. Ele possui uma estrutura cerebral diferente de todas as gerações anteriores. Pertence a um novo modelo de ser humano que veio nos guiar. É uma pena que toda vez que Jimi tenta compartilhar seus conhecimentos conosco ninguém ouça. Então ele fica irritado e atira pratos contra a parede. Muitas vezes cheios. De sopa, inclusive. Atualmente ele estuda em casa com tutores porque depois de ser expulso de cinco escolas particulares estamos tendo dificuldades em matricula-lo em algum lugar. As coisas não são fáceis para Jimi. Mas de uma coisa ele pode ter certeza: ele sempre será meu bebezinho.
Escrito por Índigo às 09h18
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Thank you, Jarbas

Vivíamos numa casa imensa. Meu marido precisava dar festas com bastante freqüência. Uma, duas vezes por semana. Eu as organizava. Mas claro que não conseguia fazer tudo sozinha. Eu disse para Jack:
“Jack, você está me matando. Se você precisa mesmo receber todos esses homens de negócio e condes italianos com suas esposas, o mínimo de que vou precisar é um mordomo. Inglês.”
A equipe de empregados eu já tinha. Então ganhei um mordomo inglês. Eu o chamava de Jarbas. Durante meus períodos de depressão Jarbas foi meu melhor amigo. Ele me ouvia. Jarbas me dava equilíbrio na vida.
Escrito por Índigo às 20h13
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Jennifer, um erro

Essa era minha filha Jennifer, de 14 anos. Ela tinha problemas com drogas. Mas isto era uma conseqüência do problema. O problema, na verdade, é que Jennifer tinha inveja de mim. Ela não era tão bonita quanto eu. Seus namorados mal pisavam em casa e já se apaixonavam por mim. Era como uma maldição. Claro que eu não vibrava com adolescentes telefonando para mim a cobrar, no meio da madrugada, pendurados em orelhões. Mas também não era de todo mal. Jennifer dizia coisas cruéis para mim. Acho que o que a irritava mesmo era o fato de eu nunca ter revidado, nunca ter jogado uma frigideira quente na sua cabeça. Sempre fui uma mulher elegante. E serena.
Escrito por Índigo às 08h52
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Jack, o caubói doméstico

Jack era o homem da casa. Ele não tinha pernas. Jack usava chapéu dentro de casa, o que me incomodava. Sua função era trabalhar fora e trazer dinheiro para nós. Assim que ele terminava de tomar o café da manhã eu o colocava numa caixa de fósforos e o empurrava para debaixo da cama. Às vezes eu precisava telefonar para Jack no meio da tarde, quando pegava fogo na nossa casa ou quando nossa filha mais nova fugia com o namorado. Ele chegava nervoso e me dava um tapa na cara. Encontrava nossa casa revirada, a mesa de jantar com as pernas para cima, feito um cachorro morto. Nessa hora Jack sempre pedia o divórcio. Depois ele se arrependia e me dava colares de esmeralda. Jack ganhava muito dinheiro. Nunca soube com o que.
Escrito por Índigo às 09h24
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O Fabuloso Espetáculo de Bonequinhos Aposentados

Respeitável público, é com imenso prazer que apresento o Fabuloso Espetáculo de Bonequinhos Aposentados. Diariamente teremos uma apresentação inédita e exclusiva para este blog, sem ensaio e sem a menor pretensão dramática. O elenco de o Fabuloso Espetáculo de Bonequinhos Aposentados é formado por aquilo que Índigo considera “cacarecos”. Nossa função é apenas encobrir um período de preguiça imaginativa da autora. A proposta é de teatro-verdade. Nossas histórias pessoais serão apresentadas conforme as memórias que despertamos. Claro que estamos com os nervos à flor da pele, mas o que podemos fazer? Então, mais uma vez... É com imenso prazer que apresento o Fabuloso Espetáculo de Bonequinhos Aposentados!
Escrito por Índigo às 09h24
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Sobre ontem à noite
 Agradeço a todo mundo que foi, com frio e tudo. Vocês são os meus heróis!
Escrito por Índigo às 19h36
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Três coisas
- Na segunda-feira inicio uma nova série nesse blog.
- No domingo volto a trabalhar no meu novo romance, que andava em coma, mas contrariando todas as expectativas, não morreu.
- Hoje não vou mais ao lançamento do Rodrigo Frésan. Vou ao meu.
Bem, é hoje:
Lançamento de “A Maldição da Moleira” Livraria Cultura do Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073 Horário - 19h
Escrito por Índigo às 08h29
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Livro novo!
Uma pequena prévia de “A Maldição da Moleira”.
Para pegar o seu, já sabe: amanhã, às 19 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Escrito por Índigo às 08h12
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Show Biz
Agora eu trabalho com cinema. Comecei ontem. Hoje é o segundo dia. Criação conjunta e intensa. Já não passo o dia inteiro sozinha em casa. Agora saio na rua e faço reuniões que começam de manhã e acabam à noite. E no fim os personagens vão se mexer numa tela enorme. Terão vozes e cabelo. As pessoas comerão pipoca e pegarão na mão do namorado. Quer coisa melhor?
Escrito por Índigo às 08h05
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Primeira chamada
Quinta-feira é o lançamento de “A Maldição da Moleira”, meu novo romance. Eu ficaria muito feliz se vocês, leitores deste blog, aparecessem por lá. Nem precisa comprar o livro. Por dois motivos.
Motivo 1 – É um lançamento conjunto. Tim Burton e eu. Se você não gostar do meu livro, leve o do Tim Burton: “O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias”.
Motivo 2 – Haverá uma mesa-redonda entre o cineasta Philippe Barcinski e esta que vos fala. Vamos conversar sobre os dois livros e cinema, claro. Será bem bacana.
Quando - 12 de julho, quinta-feira
Horário – 19 horas
Onde – Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional
Escrito por Índigo às 10h35
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Crises de FLIP
1 – Resolvi que vou parar de escrever e virar ... sei lá... agricultora 2 - Descobri que um Prêmio Nobel pode ser uma pessoa muito bacaninha 3 – Resolvi que vou continuar escrevendo, mas só escondido 4 – Ouvi que meu próximo livro é o novo “O Pequeno Príncipe” 5 - Amós Oz me mandou à merda 6 – E com isso resolvi que agora é que não paro de escrever nunca mais.
Escrito por Índigo às 10h09
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Vida normal
Volto hoje à vida normal em tempo real. Peço que sejam pacientes. Mais uma vez, agradecemos à preferência e tenham todos uma ótima viagem.
Escrito por Índigo às 09h03
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