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Vida normal
Tenho até 18hs para terminar o discurso para a festa de fim de ano de uma firma. E quem disse que consigo? Escrito por Índigo às 15h12 [ ]
Vida de escritora
Por mim, todos os dias podiam ser como hoje. Acordo, escrevo um pouquinho, tomo banho e vou para a Secretaria de Cultura receber minha bolsa de criação literária. Participo de uma cerimônia com a classe artística, com direito a participação especial de Irene Ravache, toda alegre e contente. Eu, também muito alegre e contente, ouço o discurso do secretário da cultura enquanto não ouço o que ele diz. Penso nas muitas coisas que quero fazer com a grana. Depois encontro minhas amigas escritoras, também premiadas, e vamos almoçar na Pinacoteca. Pedimos uma garrafa de vinho e brindamos, batemos papo até cansar. Volto de táxi para casa, por preguiça de pegar metrô. Escrevo esse post e tento voltar à vida normal.
Escrito por Índigo às 15h42 [ ]
Palavras em falta na língua portuguesa:
Blind date – encontro com uma pessoa que você nunca viu na vida e que pode ter finalidades românticas ou não, dependendo do que acontecer. Normalmente os participantes vão com o pé atrás, esperando o pior. Blind dates acontecem em lugares públicos e amplos, pois se for preciso você sai correndo, gritando no meio da rua, e pula dentro de um táxi. Deadline – é mais que prazo, é a data em que se você não entregar o que quer que seja, você entrará em autocombustão e nunca mais será aceito no mercado de trabalho. No dia do deadline as máquinas pifam, chove e falta luz. Você nunca deve entregar um trabalho na deadline. Isto é loucura. Você sempre entrega um dia antes, se tiver amor à vida. To earn – do verbo to earn money. Dólares são como flores vendidas em bulbo. Você terá de cavar um buraco na terra com suas próprias mãos, enterrar os bulbos e tratar de conseguir adubo, água na medida certa e sol. Depois de dois meses começa a germinar. Nesse ponto você reza para que a planta pegue, pois não há certeza de nada. Quando você finalmente conseguir aquele flor linda e perfeita, daí sim você pode dizer que você earned aquilo: dinheiro ou flor. E nisso eu concordo. Ninguém “ganha” dinheiro. Escrito por Índigo às 09h10 [ ]
Fim do dilema
A crise durou pouco. Descobri, ontem à noite, que fui selecionada para a bolsa de criação literária do PAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado. E agora não tem mais dilema. Agora é sentar e escrever “Um Dálmata Descontrolado”. Trata-se de um infanto-juvenil com os mesmos personagens de “Saga Animal”. Vou poder reencontrar Vó Ursula, Igor, Monstro, Seu Barba. Quem leu o Saga sabe do que estou falando. Aliás, há tempo falo da continuação de “Saga Animal”, que está prontinha na minha cabeça. Finalmente ela vai para o papel. Mais notícias, em breve! Escrito por Índigo às 08h18 [ ]
Cartinha para sr. Gênio
Se um gênio da lâmpada aparecesse e me concedesse um pedido, eu pediria para voltar a escrever. No dia 6 de dezembro vou lançar o quarto livro de 2006. Passei cinco anos com três livros publicados e agora, de uma hora para outra, é um livro atrás do outro, e eu não escrevo mais. (Tudo o que tenho foi escrito entre 2001 e 2005). Por que não escrevo mais? Porque tenho trabalhado como uma doida. Porque estou confusa. Porque, apesar de todos esses livros, ainda tenho dois outros livros que aguardam decisão de editoras. E eu sei que enquanto estas editoras não se decidirem eu também não consigo me decidir. E porque tem outros livros esperando para que eu comece, só que eu não sei por qual começar. É isso. Consegui colocar o dilema em palavras. Quanto ao blog, vamos que vamos. Quem sabe, desabafando por aqui, eu encontre um caminho. Sugestões são bem-vindas. Escrito por Índigo às 07h49 [ ]
Tempo
Cansei de geladeira e de americanos e de ai... cansei. Volto amanhã. Escrito por Índigo às 10h44 [ ]
Dia de Diadema
Estarei em Diadema hoje, às 20h, discutindo literatura com os colegas Andréa del Fuego, Carlos Henrique André, Ivana Arruda Leite e Sarah O evento faz parte da 1ª Mostra Internacional de Literatura de Diadema. Se você estiver por aquelas bandas, apareça. É grátis. Local: Teatro Clara Nunes Horário: 20hs Escrito por Índigo às 09h43 [ ]
Geladeira 11
Certa vez minha mãe ficou uns dias sem falar porque no meio da noite ela mordeu sua própria língua, tirou um naco e o engoliu. Todos na família acharam aquilo muito estranho. Passam-se os anos e ontem à noite acordei sentindo uma dor insuportável, como se alguém tivesse invadido meu quarto com um martelo e quebrado meus dentes. Agora o naco de língua está nesse potinho de requeijão. Graças ao histórico familiar eu sei que não há motivo para desespero. A gente fala esquisito durante um par de dias, mas depois acostuma. Isso é o mais assustador, a gente simplesmente vai se acostumando. Escrito por Índigo às 08h44 [ ]
Geladeira 10
Ontem, no mesmo mercadinho em que comprei o Fast Boy, numa prateleira mais ao fundo encontrei a Fast Cow. Ela vem em vários sabores. Esta é a Fast Cow Holandesa. O processo de cozimento é o mesmo. Ferva a água, jogue a vaca (antes tire os cascos) e deixe ferver por três minutos. Tampe. No caso da Fast Cow Holandesa, escorra a água e acrescente uma colher de açúcar. Misture lentamente durante um minuto e than nan, você terá um delicioso doce de leite caseiro! Rende uma porção individual. E lembre-se de guardar os cascos. Com oito cascos você pode produzir uma geléia de mocotó. Basta joga-los no liquidificador e adicionar duas gotinhas de água quente. Escrito por Índigo às 08h35 [ ]
Geladeira 9
Por fora:
Por dentro: Finalmente inventaram uma comida prática e gostosa. Comprei dois Fast Bois. O primeiro eu já papei. O cozimento é fácil, rápido e só suja uma panela. Primeiro você tira a capa do boi, mas não jogue fora. Depois tire os chifres e os cascos. Coloque água para ferver. Quando tiver fervido, jogue o boi lá dentro e tampe a panela. Marque três minutos. Depois de três minutos, surpresa! Você encontrará vários pedaços de bifes, prontinhos, ao ponto e já temperados. Depois da refeição, quando você for lavar as louças, pegue os chifres, embrulhe-os bem embrulhadinhos na capa do boi (que você guardou) e enterre em terra fofa. Três semanas depois, tchan-nan, germina! Escolha um lugar com bastante sol. Escrito por Índigo às 09h11 [ ]
Geladeira 8
Por fora:
Por dentro: Eu tenho dois critérios para comprar comida para consumo próprio. Primeiro, não pode engordar. Segundo, não pode ser caro. Funciona maravilhosamente, em teoria. O problema é quando os critérios brigam entre si. Esta goiabada, por exemplo. Eu a terça-feira, no mercadinho. Há mais de três anos goiabadas como esta sempre ocupam o mesmo lugar, ao lado dos queijos, no mercadinho, mas eu nunca dei trela. Ontem, como tive de esperar o tiozinho pesar umas coisas para mim, reparei. Ela custa R$1,00. Já me interessei. Mas logo a coloquei de volta, por ser uma bomba calórica (violação do primeiro critério). Então me lembrei daquele velho doce de infância, o Romeu & Julieta, que nunca mais comi. Aliás, acho que nunca, em toda minha vida, comprei uma goiabada para consumo próprio. Voltei a me interessar. Pensei nas calorias. Devolvi. Logo em seguida eu me lembrei que como vou viajar amanha, podia comer uma fatiazinha na terça, uma na quarta e hoje será a última. A partir de sexta ela deixa de ser para meu consumo próprio. Daí, meus amigos de viagem que se virem com ela. Escrito por Índigo às 07h36 [ ]
Geladeira 7
Por fora:
Por dentro:
Tem dias, como hoje, em que eu olho para minha geladeira e a ignoro completamente. É como se aquilo que eu estou vendo não é realmente o que está lá. É também como eu olho para os meus cabelos, em certos dias, ou para meu armário, ou tudo bem, vamos lá: para a minha vida. É como se aquilo fosse um rascunho do que cabelos, armário, vida deveriam ser. Qualquer coisa pode ser feita a partir do que encontro na geladeira ou na vida. É como se existissem duas geladeiras, essa aí com missoshirô, ervilhas, e mais ao fundo uma assombração de ricota e a outra, a real. A real só vem à tona no momento em que eu abro aquele pote de ricota lá no fundo e a jogo fora, em que vou ao mercado e compro o farelo de peixe para misturar no missô, em que pego uma receita de torta salgada na internet para aproveitar essas ervilhas. É quando faço, de fato, alguma coisa com a minha vida. Caso contrário, é essa pasmaceira. Escrito por Índigo às 08h18 [ ]
Geladeira 6
Superbonder, por exemplo, deve ser guardado na geladeira, para durar mais. Este, no caso, não é Superbonder, que achei caro (R$5,00 por um tubinho). Comprei o Colamais que custou R$1,50 e deu na mesma. Comprei-o para fazer um relicário a partir de um monte de cacarecos que eu vinha colecionando. Não que eu colecione essas coisas de propósito, é pura falta de coragem de jogar fora. Então, neste relicário, usei dois potinhos de purpurina dourada que, pelos meus cálculos, estão comigo há mais de doze anos. E ficou ótimo. Esses dias tomei um remédio que estava vencido há três meses, e deu efeito. Pinguei um colírio vencido há cinco. Tchan! Perfeito. São maneiras de aproveitar as cosias ao máximo. Já o cheiro verde murcho na gaveta de baixo... Não tenho nem coragem de fotografar. Escrito por Índigo às 08h22 [ ]
Americano 22: Katty quer rezar
Duas vezes por semana eu ficava de plantão no sistema de segurança da moradia da faculdade. Como era verão, o inimigo eram os tornados. Ok – pensei. Isso é coisa de filme, não deve acontecer de verdade. Aconteceu. Dispararam os alarmes da cidade. Minha obrigação era guiar todo mundo até o porão. Como estávamos em férias, todo mundo era um acampamento de criancinhas. Catei a primeira pelo braço: Katty. Enfie Katty e mais 25 deles no porão e disse para continuarem a brincar. Katty arregalou uns olhos como se eu estivesse louca. Ela pediu para eu começar um Pai Nosso. Em inglês? Eu não sabia Pai Nosso em inglês. Katty parecia querer chorar. Mandei que ela começasse o Pai Nosso em inglês. E foi somente então, vendo aquelas criancinhas assustadas, rezando sem parar, que comecei a me dar conta de que aquele tornado devia ser de verdade, e que corríamos perigo, e que casas não voam apenas em Oz. Quando voltamos ao mundo, vinte minutos depois, tudo estava de pernas para o ar, e daí foi a minha vez de entrar em pânico e rezar The Lord´s Prayer, que miraculosamente eu sabia, mesmo sem saber.
Escrito por Índigo às 08h12 [ ]
Americano 21: John Hassler, o escritor
Eu cursava jornalismo e ao imaginar minha vida futura via o Iraque, bombas estourando lá fora e eu, eufórica, martelando num laptop, mandando matérias para o New York Times. Então eu pegava meu equipamento fotográfico e dizia: - Let´s go – para o motorista. - Go where? – pergunta o motorista, olhos esbugalhados. - There – respondo, apontando para a luz das bombas. Assim, quando um senhor gordinho, de blusa de lã e calça de veludo, todo pimpão, entrou no auditório da faculdade para falar sobre sua profissão de escritor, pensei: que tédio... Mas lá fiquei, ouvindo John Hassler falar da sua rotina incorruptível, das infinitas revisões, dos diálogos imaginários com personagens. Eu o imaginava com um gato no colo, um cobertor sobre as pernas, escrevendo em frente a uma lareira, indiferente ao mundo. Quando acabou, nem aplaudi. Vida mais besta, pensei. Agora, aqui estou. Sem lareira. Por enquanto.
Escrito por Índigo às 09h23 [ ]
Americana 20: A caixa de vinho da Betty
A qualquer dia da semana, de qualquer semana, de qualquer mês, Betty tinha uma caixa de vinho na geladeira. Mas não, não era uma caixa com seis garrafas de vinho. Era uma caixa mesmo, do tamanho de uma mala de mão, cheia de vinho. Se esta caixa fosse uma mala, imagine-a em pé. E, não por acaso, no topo da caixa havia uma alça, para que Betty a carregasse da geladeira até a sala de televisão. E na quina inferior uma torneirinha. Betty servia-se de vinho como se estivesse tomando essas águas que saem da porta da geladeira. Foi descobrirmos a caixa de Betty e aquilo virou um item indispensável na geladeira de todos da turma. Era um vinhozinho inocente, que não embebedava ninguém, mas que por algum motivo, bebíamos o dia inteiro. Era ruim, claro. Mas isso não importava. Com o tempo você se acostumava. A caixa de vinho da Betty era como um seriado americano. E se você chegasse à segunda temporada, você estava viciado para sempre. ![]() Escrito por Índigo às 10h52 [ ]
Americano 19: Dylon lá longe
Uma opção de fuga bastante comum era Alaska. Dylon foi o primeiro. Quando perguntávamos por que Alaska, ele apenas respondia: - E foi. De vez em quando mandava um cartão postal com algumas palavras jogadas. Palavras como: peace, nature, joy, white, dreams. A foto era de uma cabaninha lá longe, perdida numa relva salpicada de florzinhas lilases. Todas as fotos de cartão postal do Alaska são tiradas durante as três semanas de verão, antes que tudo fique branco. Eu sempre imaginei Dylon sentado numa cadeira de balanço, na varanda daquela cabaninha, equilibrando-se no topo do mundo. É ele quem, em dias de tempestades de neve, pega uma pá e anda até a agulha espetada no topo do globo. Limpa bem a área para que ela sempre fique à vista nos globos de todas as salas de aula, inclusive nas de Uberaba.
Escrito por Índigo às 08h34 [ ]
Duas amigas entre os americanos
Nesta semana duas amigas queridas lançam livros imperdíveis. Na terça-feira, 7 de novembro, é Cristiane Lisbôa com “Papel-manteiga para embrulhar segredos”, um livro com receitas. Duplex Bistrot – R. Melo Alves, 445 – Jardins, 20hs. Na quarta, 8 de novembro, é a Maria José Silveira com “Guerra no coração do cerrado” Livraria da Vila – R. Fradique Coutinho, 915 – Vl Madalena, 19hs Escrito por Índigo às 09h39 [ ]
Americano 18: Um conselho para Pablo
Naquele outono, Pablo: o irmão de Victor Valdez,foi preso. Ele era maior de idade e sua namorada tinha 16 anos. Engravidaram. A namorada, apavorada, foi se aconselhar com uma figura chamada School Counselor. School Counselor é um tipo de psicólogo de plantão que fornece soluções rápidas a fim de manter a ordem e segurança na escola. Após ouvir o relato da menina, pediu o telefone e endereço de Pablo. A tonta deu. No dia seguinte Pablo estava preso. Tudo muito rápido e eficiente. O sistema de encarceramento, neste caso, permitia que de fim de semana Pablo voltasse para a casa dos pais, sob custódia de outro counselor, um state counselor. Victor e eu, que nunca visitamos Pablo quando livre, agora visitávamos todo fim de semana. E com tantos counselors à solta, também começamos a dar conselhos. - Fuja, cara! Isso é um absurdo. Fuja agora. Vá para o México. - Nós já esvaziamos o porta-malas. Vambora! Mas algo aconteceu na cabeça de Pablo, e ele apenas agradecia, desanimado... Counselors demais pro meu gosto.
Escrito por Índigo às 08h51 [ ]
Americana 17: Laura salivando
Naquele mesmo ano minha vizinha, Laura, foi presa. Não sabíamos que ela tinha marido. Ficamos sabendo porque ele saiu correndo para o meio da rua, aos berros, com um braço que pendia do ombro como um pedaço de pano, enquanto Laura vinha atrás com um taco de baseball. A sorte do homem foi que era verão, e domingo. Toda a vizinhança estava em seus respectivos quintais fazendo churrasco de salsicha e hambúrguer. Victor Valdez, já naturalizado americano, voou para socorrer o homem. No outro lado da rua outro vizinho ligou para a polícia. Eu deveria ter corrido para segurar Laura, pelo menos foi isso que Victor Valdez gritava para eu fazer: - Stop her! Mas Laura, salivando, girava o taco de baseball e soltava barulhos esquisitos pela narina. Corri para dentro de casa e fiquei assistindo pela janela. Eu ainda teria três anos de Estados Unidos pela frente, e me perguntava se em algum ponto a vida começaria a tomar aspecto de realidade.
Escrito por Índigo às 09h13 [ ]
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